terça-feira, 15 de maio de 2012

Vazio


O silêncio era insuportável, porém apenas de cogitar a ideia de algum ruído seu corpo te bloqueava. Não, você queria o silêncio perturbador, angustiante e frio. Porque era simplesmente assim que você se sentia; fria.
Era como se você estivesse em uma espécie de transe que você mesmo impusera a seu corpo. Ele não se liberaria disso enquanto sua mente não absorvesse as palavras que seu coração ainda repetia.
Não, não, não. Você havia absorvido muito bem aquelas palavras, havia compreendido muito bem o significado delas. O que você precisava era aceitá-las. Tomá-las como verdade. E enquanto sua mente se recusasse a aceitar isso você permaneceria no silêncio aterrador.
Já faziam alguns dias que você estava trancada dentro daquele quarto, isolada do mundo, isolada do barulho, isolada dele. Você aprenderia a viver sem ele, sabia que sim, apenas não queria.
Mas não era uma escolha sua, era? Ele havia deixado bem claro que estava cansado, que já não te amava.
Não dá mais pra continuar mentindo para nós dois, você sabe que não vamos chegar a lugar algum. Nosso amor existiu e foi lindo, mas acabou.
Você mais uma vez tornou a ouvir aquelas três frases, ouvir a voz dele te dizendo isso. Quantos dias atrás acontecera isso? Não saberia dizer. Havia perdido a noção do tempo pouco depois de se trancar ali.
Pode ouvir no começo insistentes batidas contra a sua porta, mas sua mente estava atordoada demais para que pudesse escutá-las com atenção, quanto mais responder.
Depois de poucas horas o silêncio veio pesado, comprimindo-te o peito. Respirar se tornou difícil e seu corpo tentava resistir ao estupor em que poucas horas mais tarde se encontraria.
Mas então você se acostumou a essa sensação. Você não tinha experimentado nada assim antes, e assumia que isso a assustava. Mas o medo durou apenas os primeiros minutos.
A dor tinha sumido, a culpa também. Nada mais estava ali e respirar então se tornou fácil de novo. E você respirou fundo aproveitando da sensação.
Já havia ouvido falar disso, sempre coisas ruins, criticando essa sensação que você estava tendo. Mas você não entendia, como poderiam criticar algo tão bom?
Você, pela primeira vez em toda a sua vida não sentia dor, não sentia medo, não sentia angustia. Na realidade, você não sentia nada.
Foi ai que você entendeu porque diziam que era tão ruim essa sensação. Porque assim como você estava imune da dor, também estava da felicidade. Não podia sentir-se feliz e aliviada por enfim ver-se livre da dor. Simplesmente, respirava.
Também já havia ouvido sobre isso, sobre o que vinha fazendo esses dias. Não estava mais vivendo, havia deixado isso do outro lado da porta junto aos ruídos, junto á dor, ao medo, a alegria, os sorrisos e os choros. Sua vida já não mais existia. Agora você estava apenas sobrevivendo, era apenas mais uma marionete do universo.
Você não tinha mais vontade própria. Fazia tudo apenas por instinto, por sobrevivência. Se comia ou se bebia água, não era porque tinha vontade, senão por pura e simples necessidade.
Você demorou a entender o que tinha acontecido com você, demorou a entender o que ele havia feito com você.
Ele não foi apenas embora, ele não apenas te deixou. Ele levou com ele seu coração, sua vida e a deixou assim, a mercê do universo, vazia.